Metamorfose

terça-feira, dezembro 12, 2017 0 Comments A+ a-



Precisas de uma pausa. Decidiste seguir em frente, mas nem parada o sabes fazer. Ou não consegues? Ou não queres?

"São lembranças boas!" repetes tu vezes sem conta, e vezes sem conta acreditas nisso! Conta-me quantas vezes sorriste ao lembrares-te do que já foi, de quem já partiu, do quanto já erraste. Conta-me o que os teus amigos te dizem enquanto te dão pancadinhas nas costas, enquanto te pagam o terceiro shot, enquanto te dizem que estão ali e não vês ninguém. 

Conformas-te com aquilo que tens, com medo de inventar a vida e sei que até agora já te arrependeste. O que te importa é o que levas para a frente? Então e o que deixas para trás? Perguntas desafiantes não? Não és perfeita, eles não são perfeitos, o mundo não é perfeito. Queremos ser a mais bela borboleta mas não passamos de casulos. E somos tantos, não somos? 

Pouco importa o ponto em que te fartaste quando tens recomeços e sei que até agora já usaste e abusaste. Eu também.

Afinal de contas a vida é um nó cego de caminhos, mas... se ela passa a correr, porque continuamos a andar?

23:47

quarta-feira, maio 10, 2017 10 Comments A+ a-



Dez minutos da paragem do autocarro até casa. Fim da noite, mais um dia de trabalho, mais uma farda para lavar. A ti, pessoa que estás desse lado do computador, vamos falar.

Se és mulher, sei que partilhamos a mesma agonia, o mesmo medo de caminhar sozinhas, seja onde for. Sei que tremes ao avistar um vulto do outro lado do passeio e anseias que seja uma mulher, alguém que te olhe com o mesmo alívio por te ver ali.

Se és homem... Deixa-me que te diga que a rapariga com quem te cruzas leva o coração nas mãos, talvez até tenha mudado para o outro lado da estrada antes, e podes ter a certeza que ela irá olhar para trás mal te afastes dela. Será que vais atrás? Não é por mal... Aliás, até é. Nunca ouviste dizer que por uns pagam todos?

A ti mulher, sei que susténs a respiração quando um olhar te varre de cima abaixo, perguntas-te se serão as calças justas de mais ou a blusa com um botão a menos. Será o baton vistoso de mais?

A ti homem, que respondeste mentalmente, corpo não é público, corpo não é mercadoria, gostosa não é elogio. Será difícil controlar os impulsos sexuais? Será que não tens ninguém em casa para tocar, para assediar?  

A ti homem, que me puseste as mãos em cima, talvez um dia te ponha as mãos em cima também... Mas não, não tenciono cruzar-me com "gente" como tu.

A ti mulher, que és violada física ou verbalmente, denuncia. 


A última vez que me deitei de coração cheio

terça-feira, janeiro 24, 2017 2 Comments A+ a-


Provavelmente foi antes da transição entre a infância para a adolescência a última vez que me deitei com o coração alegre, despreocupado e inocente.
Como toda a gente, eu cresci e arrisco-me a dizer que todos adorávamos regressar aos tempos em que a vida era uma brincadeira: todos os dias era dia de escondidas, apanhada, de berlinde e pião, tardes essas que pareciam não ter fim. Tempos em que as minhas preocupações eram quando perdia os sapatos das bonecas que nem Barbies eram, ou quando o homem da carrinha de gelados não passava. Essa bela fase que me fazia acreditar em tudo o que as pessoas me diziam, a birra do cabelo “à tigela” com franjinha ou os brinquedos que passavam na televisão e eu nunca tive por serem demasiado caros.
A verdade é que quando passamos à adolescência começamos a caminhar pelos nossos próprios pés e a traçar os nossos passos. É quando saímos de debaixo das asas dos pais e temos parte da liberdade que nos faltava na infância e perdemos a inocência e ingenuidade para nos prepararmos para a vida real, para as dificuldades, objetivos, sonhos e preocupações.
Agora que entrei na vida adulta já sinto falta da adolescência. A cada fase sentimos falta daquilo que já fomos. Quão ingrato isso é?

Nunca te deixes sozinho

terça-feira, janeiro 24, 2017 2 Comments A+ a-



15 de Janeiro de 2016


Não quero que te pareça um sermão o que estás prestes a ler. Se quiseres é claro. Tenho reparado nos teus últimos dias, sim teus, porque de meus já nada têm, nossos muito menos; já pouco sei sobre ti, por onde tens andado e com quem, pouco sei acerca dos teus pensamentos e devaneios mas se há coisa que conheço é o teu foco em descobrires quem és. Verdade seja dita sempre admirei isso em ti, o facto de quereres mais e mais, de quereres atingir aquilo que nem sabias ser possível de alcançar,  mas na minha opinião que vale pelo que vale nunca o descobrirás sem viveres. E com “viver” não quero dizer a merda de rotina que teima em consumir-te, desculpa o prosaico do termo, acordares a pensar “tem que ser” e ires dormir a reclamar “finalmente”. Com “viver” quero dizer procurar o que te faz feliz, sem hesitações, sem medos, sem arrependimentos, sem lamentações.  Não é errado se te faz feliz.
A vida é imprevisivelmente previsível, pequena de mais para nos procurarmos, para nos definirmos com esquemas e rótulos, por isso pede, implora, questiona, declara, rouba, devolve, nega, sonha, acorda, come, bebe, escolhe, experimenta, arrepende-te, consulta, espera, avança, mas acima de tudo sente; sente com todos os tecidos do teu corpo. Não deixes que nada te escape por entre os dedos, a prioridade és tu, a tua felicidade. Não te abandones, não te reprimas, não te acanhes.
Traça o teu caminho, podes ir em primeiro lugar, mas leva alguém contigo, partilha o pódio. Anda lá! Oferece o que tens, recebe o que te dão, de sorriso rasgado. Existem limites sim, se os traçares. Não o faças, por ti.
Já te contei que aprendi isto? Mas não foi sozinha.
Nunca te deixes sozinho, por favor.

J

Amanhã, o dia em que partiste - Pai ❤

terça-feira, janeiro 24, 2017 4 Comments A+ a-



22 de Junho de 2015


A ti Pai,
Cinco anos e ainda tão presente a tua perda, tão injusta e inesperada. Nunca se está preparado para ver alguém que amamos partir, ou para projectar a vida futura sem ela. E foi assim mesmo. Acho que no preciso momento não tinha a certeza da dimensão do acontecimento, foi sim ao longo dos dias que não vinhas para casa para jantarmos naquela mesa minúscula mas repleta de comida que, com o teu suor, nunca deixavas faltar, naqueles dias que já não existiam idas ao café, passeios de mota.
Não consegui despedir-me pai, não consegui dizer-te o quanto estava orgulhosa por teres tido uma vida tão dura e nunca, nunca desististe. Não consegui agradecer-te por nunca me deixares faltar nada, não consegui dar-te um abraço apertado, olhar-te nos olhos e dizer que no fim de tudo embarcaríamos todos na mesma viagem que tu. Não consegui agradecer-te por nos teres deixado um lar onde ficar, não consegui agradecer-te por me ensinares a ser humilde e verdadeira com as pessoas e sabes o quanto gostaria que estivesses cá hoje para estares presente em todos os acontecimentos da minha vida, na vida da tua família? Gostava tanto que estivesses cá e ver que me tornei naquilo que querias que fosse, “uma menina com juízo”, gostava tanto que visses que os manos seguem as mesmas pisadas que tu, com o mesmo esforço que tu para terem aquilo que precisam e querem. Gostava tanto que estivesses cá para a nossa vida ter continuado feliz como era, do jeito genuíno que era.
Tem sido tão difícil viver cada dia sem dizer coisas tão simples como “o meu pai vem-me buscar”, “fui com o meu pai à festa da nossa terra”, coisinhas que parecem tão banais mas que me causam tanta dor, tanta saudade pai. Porquê assim? Porquê tão cedo pai? Ainda
precisava precisávamos tanto de ti, e nisso nada mudou porque ainda hoje precisamos de ti, precisamos das tuas piadas, da tua alegria, da tua força, do teu sacrifício, da tua casmurrice.
Tenho a agradecer por teres criado dois irmãos que não poderiam ser melhores comigo, por serem os meus segundos pais, e eu tenho a certeza que herdaram de ti. Por mais obstáculos que passem estão sempre de pé, e embora não tenha dito muitas vezes, eu tenho muito orgulho neles, tal como tenho em ti e na mãe. Sabes? A mãe nunca mais foi a mesma desde que partiste, é verdade. Ela perdeu o marido, o pai dos filhos mas acredita que ela nunca te substituirá, tal como eu e os manos. Pai é só um e tu fizeste tudo o que podias por nós até ao teu último suspiro. Hoje considero-vos a todos meus pais, pois tive a sorte de ser a filha mais nova, a que teve mais regalias, a que sofreu menos dificuldades, mas não é por isso que não valorizo todos os vossos atos.
Acho que sabes que tenho feito algumas asneiras não é pai? A tua partida não foi fácil, tornei-me uma menina fria, talvez rebelde. Pus a mãe em ataques de nervos muitas vezes eu sei, mas cresci, aprendi e sei que estejas onde estiveres estás orgulhoso. Tenho lutado sempre por aquilo que quero, uma coisa de cada vez, porque a nossa vida nunca foi fácil, nunca nos deu nada e assim sou eu. Ninguém me dá nada e há que ir à luta não é?
Cinco anos que me mostraram da pior maneira o que é perder um pai, de um segundo para o outro, de ver quem amo sofrer com a tua ida. Lembro-me de ter a visão turva enquanto estava deitada sobre ti a tentar ouvir o teu coração, e tenho a certeza que nunca senti ou sentirei tanta esperança e tanta dor misturada num só corpo. Em vez de ouvir o teu batimento, apenas ouvia o meu desesperado pelo teu. Eu agarrei-te na mão, chamei por ti. A esperança de te ver mexer era tanta, mas o desgosto de não acontecer tão maior. O cenário era tão triste que eu não sabia se seria real. A tua família estava contigo pai, e desculpa, desculpa ter sido tarde, desculpa ter sido nestas circunstâncias, desculpa não ter estado ao teu lado no momento em que precisaste, desculpa por ninguém ter conseguido socorrer, desculpa!
As tuas últimas palavras pai, deixam-me esperança sabes? “Até amanhã!”. Continuo todos os dias à espera do amanhã para poder ver-te de novo, para poder estar contigo outra vez, e para sempre. Amo-te incondicionalmente. Jamais te esquecerei!